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Na senda de Miguel Torga
Por Maria Teresa Portal Oliveira (Professora), em 2015/08/10410 leram | 0 comentários | 112 gostam
A 17 de julho, os docentes do AET fizeram um percurso na senda de Miguel Torga por proposta da Becre em parceria com a editora OPERA OMNIA, cujo diretor foi o guia oficial.
No percurso realizado em camioneta (eram vinte e oito docentes), foram vários os autores da Literatura Portuguesa focados, uns mais conhecidos do que outros.
Das Taipas, rumámos a Vila Real para um paragem técnica e provar os covilhetes, espécie de empadas de carne representativas da gastronomia vila-realense, e prosseguimos para S. Martinho de Anta, terra natal de Miguel Torga, que ali quis ficar aí na sua derradeira morada, onde visitámos a sua casa e demos uma volta pelo centro da aldeia, onde pudemos ver o negrilho na praça, uma árvore centenária da qual já só resta o tronco e à qual Miguel Torga dedicou um poema.

A UM NEGRILHO

Na terra onde nasci há um só poeta
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

Fomos ao Espaço Torga, onde vimos fotografias e um vídeo sobre o insigne escritor.
Dali rumámos a S. Leonardo da Galafura, um dos locais prediletos de Torga, onde almoçámos, um piquenique, onde a camaradagem foi o ponto alto, para além da paisagem maravilha das terras transmontanos que Torga batizou de “reino maravilhoso”. Também aí vimos um penedo com uma lápide com um poema de Torga dedicada à terra.

São Leonardo de Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em dreção ao cais divino.
 
Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
 
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Eis como ele descreveu o Douro no Diário XII:
 «O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a refletir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta».

Demos um salto ao Peso da Régua, onde passeámos no trem turístico e visitámos as Caves de Vale do Rodo.
Já no regresso, fomos lanchar ao Parque Fluvial de Amarante e… com muita pena, mas bem-dispostos e cheios de cultura, regressámos às Taipas, com vontade de reler Miguel Torga, um dos grandes da Literatura Portuguesa.

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